Entre os muitos registos paroquiais que documentam vidas anónimas, surgem ocasionalmente fragmentos que nos ligam diretamente à história global. O batismo de Joaquim, escravo do Padre Estêvão Pestana, realizado a 24 de maio de 1759 na freguesia de Castelo, é um desses casos. O registo, embora breve, revela ligações entre o interior de Portugal e a costa africana, nomeadamente Cacheu, um dos mais antigos entrepostos portugueses no tráfico atlântico.

O facto de este jovem africano ter sido batizado como escravo do pároco local é particularmente relevante: demonstra que, mesmo em zonas rurais do centro de Portugal, alguns membros do clero mantinham escravos, geralmente ao serviço doméstico.
No século XVIII, Cacheu, na atual Guiné-Bissau, era um importante ponto de exportação de pessoas escravizadas para Portugal e as suas colónias. Algumas acabavam por permanecer na metrópole, sobretudo ao serviço de famílias com estatuto económico relevante. A presença de escravos no interior do país ainda é pouco estudada, mas casos como o de Joaquim provam a sua existência.
A freguesia de Castelo, então parte da administração eclesiástica da Sertã, integrava um território rural onde escravos eram sobretudo empregados em serviços domésticos, agrícolas ou de apoio às casas senhoriais.

