No dia 3 de julho de 1618, na freguesia de Vila de Frades, concelho da Vidigueira, foi celebrado um casamento raro para a época: Salvador Esteves, descrito no registo como “índio de nação” e escravo de Diogo Raposo, uniu-se a Isabel Fernandes, uma mulher branca, livre, que trabalhava como criada de Fernão Martins.
A expressão “índio de nação” era frequentemente usada na documentação portuguesa moderna para designar indígenas provenientes sobretudo do Brasil, capturados ou incorporados à força no sistema colonial. Este caso revela assim a presença de indígenas americanos em Portugal continental, numa época em que o tráfico de escravos não se limitava a africanos, mas incluía também nativos de outras possessões ultramarinas portuguesas.
O matrimónio entre um homem indígena, mantido em cativeiro, e uma mulher branca e livre, ainda que de condição servil, ilustra as complexas dinâmicas de mestiçagem, coabitação e mobilidade social que existiam, embora de forma pontual, na sociedade portuguesa do início do século XVII. É particularmente relevante notar que Salvador, mesmo sendo escravo, teve o seu casamento reconhecido pela Igreja, o que reflete a tensão entre a instituição do matrimónio cristão — teoricamente universal — e a realidade da escravidão.
Este breve apontamento é um testemunho valioso das múltiplas camadas étnicas, sociais e jurídicas que coexistiam no Portugal quinhentista e seiscentista, onde o Atlântico Sul se fazia sentir até nas mais pequenas vilas do interior alentejano.
